sexta-feira, 9 de junho de 2023



HISTÓRIA Nº. 93

 

O que fizeram do homem, da vida, do mundo?...

 

Palavras que ninguém ouve porque não as diz. Gestos que ninguém vê porque não os faz. Olhares que ninguém interpreta porque são vazios. Ausência de expressão, a invisibilidade possível. Imobilismo que contraria a vida. Um manto de aparente quietude cobre os caminhos que já não percorre. Excesso de paz que não tranquiliza, sossego agitado, como quem dorme e não repousa. Nada acontece!

 

Sucedem-se os dias sem que deles espere o que já não sonha. Sempre que o fez, sem a presença de pesadelos, reuniu material que lhe permitiu antecipar um futuro que afinal não chegou. Em seu lugar veio outro, o que não projetou… Ao contrário do que alguém disse, o sonho não comanda a vida!

 

No tempo em que se atreveu a ter voz não foi ouvido. Era previsível o aparecimento de encruzilhadas a dificultar escolhas..., felizmente, até hoje, por indicações superiores, acertadas. Mas mais dificuldades surgirão. O resto (que resto?!...) do caminho, cuja estreiteza se acentua cada vez mais à medida que nele se avança, prenuncia exigências de firmeza e de fé como garantias de superação.

 

O que fizeram do homem, da vida, do mundo? “O mundo já caiu, só me resta dançar sobre os destroços” – (Clarice Lispector). 




terça-feira, 23 de maio de 2023




 HISTÓRIA Nº. 92

 

 

Que pena, já ninguém se entende!...

 

 

Foi sempre de poucas falas, mas a verdade é que nunca lhe faltaram palavras, muitas palavras que sempre procurou segurar, por antecipar a ausência de um resultado positivo junto de quem (não) as ouvisse. Sim, é verdade, de quem (não) as ouvisse! Reservado, faltou-lhe quase sempre a vontade de expor os seus pensamentos, os seus pontos de vista, os seus argumentos. Interpretar com verdade o Alemão nunca será tarefa fácil para ninguém!...

 

Houve sempre quem fosse mais afoito, mais falador. Mas o tempo, grande Mestre, acabou por dar-lhe razão em matéria de discrição. Tantas e tantas vozes poderosas se levantaram, cada uma em tom mais audível do que as outras, num areópago desordenado, descontrolado, procurando-se pela gritaria abafar definitivamente a múltipla concorrência. Tanta oferta para tão pouca procura!... Que pena, já ninguém se entende!

 

Poucos conhecem as posições do Alemão no imenso palco da vida. Percebe-se, todavia, que prefere a doce linguagem que surge dos silêncios que frequenta e que lhe sossegam, talvez excessivamente, o seu dia a dia.

 

Deixem-no por lá, em paz!...



 

sexta-feira, 5 de maio de 2023



HISTÓRIA Nº. 91

 

“Quando me viam parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios”.

(Mia Couto, in “Antes de Nascer o Mundo”)

 

Ler Mia Couto é como desfolhar um volumoso álbum de velhos retratos de família, de nós mesmos. É arriscar o despertar de saudades adormecidas e ter de lhes sentir a dor aguda do que se viveu e se amou até que sosseguem de novo. Memórias a preto e branco ou sépia de gente e de vidas intensamente coloridas. O passado que poucos valorizam, mas responsável ainda hoje por muito do que sobrevive.   

 

Noventa e um despretensiosos escritos, mais uns quantos intencionalmente não numerados, revelam algumas caraterísticas do Alemão que amigos de longa data e gentis leitores bem conhecem. Também ele utiliza palavras como “recatado, recanto, quietude, silêncios” que, mais do que recursos de estilo de que tantas vezes se socorre nos simples textos que compõe, são uma espécie de marca que o identifica e lhe dá indubitável presença, traços indeléveis de uma personalidade facilmente reconhecível, vincada profundamente ao longo do tempo vivido. “Uma vida inteira desempenhado, de alma e corpo ocupados” …

 

O passado, o bom passado, há de estar sempre presente na vida do Alemão, fazendo jus ao título do que escreve desde o primeiro número: “História”, embora nem sempre o seja. Em muitos casos, apenas desabafos. Alguns enigmáticos, outros nem tanto. Escreve para si... “Velho não. Entardecido, talvez. Antigo, sim” – Mia Couto, in “Idades cidades divindades”.

 

Afinal, “de que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem?” – Mia Couto, in “O fio das missangas”.

 

    

terça-feira, 18 de abril de 2023



 


HISTÓRIA Nº. 90

 

 

“Hoje eu queria ler uns livros que não falam de gente, mas só de bichos, de plantas, de pedras: um livro que me levasse por essas solidões da Natureza, sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades, elogios, celebrações…

Hoje eu queria apenas ver uma flor abrir-se, desmanchar-se, viver sua existência autêntica, integral, do nascimento à morte, muito breve, sem borboleta nem abelha de permeio. Uma existência total, no seu mistério.

(E antes da flor? – Não sei.) Esta ignorância humana. Este silêncio do universo. A sabedoria.”

 

(Meireles C., Compensação)

 

 

 

Dos que o viram crescer, muito poucos sobrevivem. Estes confirmarão, certamente, a notória inclinação para o silêncio e para a solidão que desde sempre deixou perceber. Uma espécie de eremita num qualquer deserto deste mundo. Formas de estar, silêncio e solidão, mais assumidas do que impostas, ainda hoje colunas sustentadoras do seu edifício pessoal. Há quem veja nisto uma queda para a tristeza crónica, vício doentio: outros a negação da própria vida tal como a definem alguns sociólogos. O Alemão, socorrendo-se de um autor anónimo, garante que “o silêncio e a solidão nunca lhe ensinaram tanto sobre as pessoas e sobre si mesmo”.

 

Casualmente, tal como a insigne escritora Cecília Meireles, o Alemão “hoje quis ler uns livros que não falam de gente”. E descobriu uma pérola literária, o texto que com a devida vénia acima reproduz. Escrito no século passado no contexto de determinada realidade, terá ganho estatuto de contemporaneidade. Há de ser sempre atual!...

 

Num tempo como o que se vive, percorrer “as solidões da Natureza, sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades, elogios, celebrações…” é ir de encontro a uma paz consistente, autêntica. É essa paz que o Alemão tem perseguido pelos caminhos da sua escolha de sempre: silêncio e solidão. Mesmo que muitos não tenham ainda entendido!...

 

“Hoje eu queria apenas ver uma flor abrir-se, desmanchar-se… “




sexta-feira, 24 de março de 2023




 HISTÓRIA Nº. 89

 


“Quero sempre poder ter um sorriso estampado em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre… E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.”

Mário Quintana

 

Nos seus tempos livres, cada vez mais raros, aproveita para ler um pouco, prosa ou poesia, revisitando alguns dos seus autores favoritos. Do que leu hoje, reteve o que acima e abaixo transcreve com a devida vénia e que lhe libertou os pensamentos ultimamente tão aquietados por uma persistente e preocupante apatia. Viajou, então, nas asas do tempo, sentindo-se levado de encontro à figura franzina do infante Alemão, menino sonhador, de sorriso constante, puro, natural. Que sempre amou a paz e por ela pagou -e paga ainda hoje- faturas muito elevadas.

                                                                                

                                                                                            Recordo ainda... E nada mais me importa
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta....

 

Acreditava na bondade, na sinceridade, no amor, no respeito, na lealdade, e em tantos outros valores, como bens trazidos à nascença e destinados a durar uma vida inteira em cada ser. Que ingenuidade! Cedo percebeu, ainda nos tempos da adolescência, que determinados valores são apenas exigíveis aos outros…

Mas veio um vento de desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

 

Esperava chegar aos dias de hoje e gozar a tranquilidade de uma sociedade construída e assente sobre bases duradouras de um indestrutível humanismo. Lamentavelmente, observa o contrário; não há muito a fazer pelo mundo!...

 

Estrada afora após segui... Mas ai,
Embora idade e senso que aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

 

Eu quero meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente! ...

 

QUINTANA, Mário. Poesias.

 

 

Pelo menos, o Alemão procurará manter o sorriso que transmita paz!...




terça-feira, 28 de fevereiro de 2023




HISTÓRIA Nº. 88

 

Estranho cansaço…

 

“Mas o pior é o súbito cansaço de tudo. Parece uma fortuna, parece que já se teve tudo e que não se quer mais nada”

Clarice Lispector

 

Numa das suas mais recentes caminhadas, deixando-se levar à toa, a certa altura deu consigo na zona histórica do Porto, mais precisamente nos lugares onde viveu e cresceu até ao casamento. Parou defronte de cada prédio com história e muito significado para si, hoje todos restaurados. Quanto a contar sobre famílias numerosas que ali viveram e com quem conviveu, onde sempre havia lugar para mais um! E muito, muito amor, hospitalidade, generosidade… Talvez a justificar um qualquer memorial em cada porta com a gravação de “Aqui viveu…”

 

E lembrou ainda…

 

“Sozinho, sentado na soleira da porta do prédio onde morava, observava o buliçoso movimento diário, horas a fio. Atualmente zona citadina calma para turista desfrutar, foi há muitos anos lugar de enorme frenesim. Pessoas simples, pobres, granjeavam ali o pão de cada dia, de sol a sol, de segunda a sábado, junto às bancas que montavam no chão dos passeios largos que ladeavam a rua, repetindo até à exaustão, em crescendo de intensidade, pregões sobre a qualidade dos produtos que vendiam: “sardinha fresca, vivinha”, “fruta linda, fregueses”, “olha a bela couve-lombarda” … O fecho da “loja” determinado pela venda do último artigo não significava o fim do dia. Em muitas dessas pessoas que bem conhecia, o Alemão sabia existir reservado ainda um tempo para Deus, assim como para o exercício do amor e da solidariedade junto de amigos mais desfavorecidos do que eles. E eram muitos!...

 

Não havia cansaço que fizesse parar aquela gente crente em Deus, num tempo em que sonhar com altos voos era uma ousadia que a pobreza e a desesperança desaconselhavam. Eram bem vincadas as posições e as (im)possibilidades sociais. Praticamente inultrapassáveis as linhas demarcadoras das classes definidas por duvidosos, mas nunca questionáveis critérios. Vivia-se verdadeiramente “um dia de cada vez”!...

 

Regressado da caminhada, o Alemão não parava de pensar: “que estranho cansaço o destes tempos, seletivo cansaço!...” 



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023




HISTÓRIA Nº. 87

 

      “A arte de viver é simplesmente a arte de conviver… simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!”  

 (Mário Quintana)

 

Tantos e tão poucos!...

 

Chegado aqui, o Alemão confessa que esperava encontrar um mundo tranquilo, sociável, solidário, próspero, enfim, um lugar interessante para consumo do resto dos seus dias. A tantos ouviu promessas direcionadas naquele sentido, porém em poucos percebeu o indispensável e empenhado esforço na sua concretização. Que lamentável inquietação perturba a vida sobre a terra!...

 

O egoísmo prolifera incontinente e acentua-se cada vez mais. O desrespeito instalou-se e já ninguém o desaloja. O próximo (“quem é o meu próximo?” ...) vale pouco ou nada. A arte de viver, para muitos, mais não é (mais não foi!...) do que uma oportunidade perdida. Que as gerações vindouras cheguem a tempo de endireitar o que está torcido!...

 

Vivendo e convivendo, o Alemão foi colecionando memórias. Seletivo, a algumas concedeu exposição na vitrine pessoal a que só ele acede, umas vezes apenas para limpar a poeira do tempo, outras para se deliciar na inapagável reprodução de momentos pouco menos que intemporais. Um cantinho especial da sua existência onde espera, ainda, ver aumentado o seu valioso espólio.

 

Haverá sempre lugar para mais uma boa memória!...