sábado, 7 de novembro de 2026







“Faço o possível para escrever por acaso. Eu quero que a frase aconteça. Não sei expressar-me por palavras. O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio. Expressar-me por meio de palavras é um desafio. Mas não correspondo à altura do desafio. Saem pobres palavras.”

- Clarice Lispector

 


Analisa as palavras, uma a uma. Das mais complexas às mais simples, a todas sujeita a um crivo apertado que as avalia. As que escapam, poucas, serão sempre um resto que nunca usará a não ser por acaso. E, mesmo assim, como as demais, pobres palavras. Nunca expressarão com rigor o que sua alma esconde religiosamente, por insuficiência de alcance descritivo. Nem tudo se explica por palavras! Como a autora que o inspira neste texto, o Alemão confirma que os seus sentimentos são intraduzíveis.

 


“A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior, e não há uma palavra que a signifique.”

- Clarice Lispector



Indigna-se perante a ousadia de quem julga interpretar claramente os silêncios que prefere às palavras que não arrisca. Lamenta, ainda, que misturem o que julgam ser os seus indivulgáveis pensamentos com a amálgama de conclusões depravadas que alcançam da limitada e distorcida observação que fazem destes tempos na sua vida pessoal. A incontinência das gentes que pervertem o segredo não revelado em inenarráveis vulgaridades.  

 

 

“Só a necessidade que eu tenho me justifica.

Que seria de mim se eu não precisasse?

Que seria do meu corpo se não houvesse

o aviso da fome? Que seria de mim se não

houvesse o futuro? Que seria de mim se eu

não precisasse de Deus?”

- Clarice Lispector

 

 

“Só a necessidade que eu tenho me justifica”. Longo desdobrável de restrito acesso, diversas necessidades aglutinadas em uma só. “Que seria de mim se eu não precisasse de Deus?”.

 

A final,

“Desculpem eu ser eu. Quero ficar só! Grita a alma do tímido que só se liberta na solidão. Contraditoriamente quer o quente aconchego das pessoas”

– Clarice Lispector

 

O Alemão

2025.11.07

sexta-feira, 6 de novembro de 2026


 

“Um girassol no fim da tarde, 

uma menina que corre com o cabelo ao vento, o sol que se despede no horizonte,

cheiro de eucalipto no ar… 

Tudo é poesia no ocaso.”

- Rosicarmen Xavier

 

 

Mais uma carta ao vento, sem endereço, levada ao acaso, ziguezagueando face às incertezas da intensidade dos impulsos, nem sempre constantes, dificultando qualquer tentativa de recolha. Voa livre sobre um mundo pobre, quase esgotado do bem!... Onde e a quem chegará? Pergunta-se apenas por curiosidade, pois ninguém a lerá, certamente. Palavras soltas, enigmas de difícil interpretação, desabafos sobretudo. E a noite a chegar!...




A doce melancolia do entardecer. As cores serenas da vida, embora desbotadas pelo tempo, entregando-se totalmente submissas à escuridão que se aproxima e que avidamente as absorverá. O girassol já recolhido pela ausência do sol que se escondeu, a menina que corre aproveitando o último sopro do vento que lhe alisa carinhosamente os cabelos soltos, o cheiro de eucalipto no ar a suscitar respiração profunda, purificadora…. Momento mágico, único. É a hora dos poetas, o sublime momento da recreação de emoções dormidas entretanto acordadas, o despertar de saudades, alegrias, tristezas, dores, lágrimas…. enfim, o ocaso em todo o seu esplendor!

 


Mas, “quando achamos que depois do pôr do sol tudo vai ficar escuro, chega Deus com as estrelas e nos presenteia com a Sua Luz” – Edna Frigato. “O pôr do sol ensina-nos que o fim de algo não significa o fim de tudo” – Ralph Waldo Émerson. À bon entendeur!...

 


Mário Quintana, sempre presente por aqui, disse um dia que “o que mata um jardim não é mesmo alguma ausência nem o abandono. O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem por eles passa indiferente. E assim é com a vida, você mata os sonhos que finge não ver”. O fim de algo ou o fim de tudo está, muitas vezes, na mão do próprio homem. Altaneiro, arrogante, prepotente, individualista, caminha seguro sobre um chão doído que não valoriza e que pisa sem respeito pelo esforço de quem o construiu. Caminho que termina logo ali, quando a noite chegar…



“No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas

 

Que o vento não conseguiu levar:

Um estribilho antigo,

Um carinho no momento preciso,

O folhear de um livro de poemas,

                O cheiro que tinha um dia o próprio vento.”

 

- Mário Quintana

 

 

 O Alemão

 

2024.11.12


Silva Reis, um homem, duas vidas

 


“Pois dentro desta manhã 

Vou caminhando. E me vou 

Tão feliz como a criança 

Que me leva pela mão.

Não tenho nem faço rumo: 

Vou no rumo da manhã, 

Levado pelo menino 

(ele conhece caminhos

                e mundos, melhor do que eu)"                                                                                                                                    

- Thiago de Mello

 

 


Mais uma carta ao vento, papel esvoaçante, sem destino. Desabafo enigmático que, como outros, não chegará a ninguém. O envelope, intencionalmente simples, não atrairá leitores. Assim se deseja!... “Não tenho nem faço rumo: vou no rumo da manhã, levado pelo menino (ele conhece caminhos e mundos, melhor do que eu)”.


Sempre levado pela mão de quem o amou, percorreu confiadamente os caminhos que lhe foram propostos e lhe definiram a vida até aqui. Acumulou inesquecíveis experiências, algumas irrepetíveis, criadoras de sentimentos que resultaram numa dedicação irreclamável, mesmo quando o cansaço começou a sugerir alguma desaceleração.

 

 

O que construiu está diante dos olhos de todos os que veem. Nem muito nem pouco, o possível!... Mas sempre com amor, com entrega sem reservas, sem queixumes. A conservação do seu mundo tem sido extremamente desgastante. Os últimos invernos, muito rigorosos, provocaram acentuados estragos, felizmente eliminados por urgentes reparações. O preço tem sido bem alto; até quando o conseguirá pagar?... Preocupam os próximos invernos; quem os suportará?

 

 

Sem manutenção avançará a ruína, a demolição natural. Tanto se perderá no pó da terra, sob novas edificações que não assegurarão a memória dos tempos. Nem um simples agradecimento a quem por ali andou!

 

 

“Sei que sou pouco e que sei pouco. 

Mas dentro do pouco que sei e que sou

me dou por inteiro. 

Mesmo sabendo que nunca verei o homem

Que gostaria de ser”.

 

- Thiago de Mello

 

 

 O Alemão


2024.10.25 


 

Vento que passas, leva-me contigo. 

Sou poeira também, folha de outono. 

Rês tresmalhada que não quer abrigo 

No calor do redil de nenhum dono.

Leva-me, e livre deixa-me cair 

No deserto de todas as lembranças,

Onde eu possa dormir 

Como no limbo dormem as crianças.


- Miguel Torga

 

 

 

Procura o equilíbrio diante dos fortes ventos que ultimamente têm soprado sem parar, vindos de diversos quadrantes. Desconhece as condições climáticas que os originaram, assim como as razões da direção escolhida. Os últimos ventos, fortes ventos, desarrumaram-lhe as lindas lembranças que meticulosamente conservava ordenadas em valiosas prateleiras de particular acesso, pondo perigosamente em causa muita da sua riqueza…




Dúvidas e mais dúvidas a enfraquecerem as bases, num turbilhão de maldades pretendendo a queda pela vacilação. Exige-se urgente reordenação do que não esteja perdido, mas com mudança de critério no seu regresso ao lugar de onde foram levadas: as lembranças mais antigas, na frente; as mais recentes, atrás. O passado mais à mão de semear, a exaltação dos alicerces de um homem e de duas vidas… Valorização cronológica que nem todos aceitam, por negarem no presente a existência viva do passado. Paciência, cada um sabe de si, cada um sente como sente!...

 

 

Vai escrevendo cartas que ninguém lê. Escreve-as para si, é verdade, como tantas vezes revelou. Quase sempre sossegam o seu espírito frequentemente inquieto e que se basta com a atenção que lhe é dispensada por algumas palavras… que não passam disso mesmo: palavras que, embora sentidas, também são levadas pelo vento. A inação, essa, está condicionada pela postura solitária que escolheu e pelo ânimo que já não tem. E, depois, ninguém lê cartas ao vento!…

 

 

Há quem tenha consciência do entorpecimento coletivo que ausenta a muitos do melhor que a vida ativa pode proporcionar: a paz. Um sono pesado castiga o mundo profundamente adormecido, que teima em não despertar para valores que hoje considera desajustados e, sobretudo, ultrapassados. Terra estranha!...

 

 

“Junto aos rios de Babilónia nos assentámos e chorámos, lembrando-nos de Sião” – Bíblia Sagrada, Salmo 137,1.

 

 

 

 O Alemão


2024.10.17


 

Silva Reis, um homem, duas vidas

cartas ao vento, não as leiam…

 

 

                                                                                                                                                          O idoso

 

 

Não choremos, amigo, a mocidade! Envelheçamos rindo. 

Envelheçamos 

Como as árvores fortes envelhecem, 

Na glória de alegria e da bondade, Agasalhando os pássaros nos ramos,

Dando sombra e consolo aos que padecem!

 

- Olavo Bilac

 

 

Não se enganaram, é ele mesmo! Conhecem o seu nome de registo, o verdadeiro. Este, que encabeça o texto, não existe, mas é nome que nunca esqueceu, apesar de não o pretender lembrar… Oxalá estas cartas ao vento levem para sempre as tristes recordações, esta e outras, que tanto influenciaram pela negativa o seu estilo de vida!



Surgiu do nada. O seu aparecimento foi incómodo para alguém. Mas sobreviveu, sempre amparado por quem o amou. Avançou pelas beiradas da vida, ganhando e perdendo perante as dificuldades normais de quem nasceu em meados do século passado e sobrevive, ainda. Nunca foi fácil o caminho, mas nunca perdeu a atração despertada pelo futuro, quando este lhe foi anunciado. Confiou num Projeto Superior, seu sonho maior, por cuja construção e afirmação trabalha ainda hoje por amor.

 

 

Mais dia menos dia, adivinhavam-se as perigosas encruzilhadas. Muitas propostas, dificuldades acrescidas quanto à escolha do caminho… Mundo em turbulência! Pouco ou nada se pode fazer, agora. Cada vez menos força para o combate. A idade não perdoou!...

 

 

Se possível, “envelheçamos rindo” …

 


 O Alemão

 

2024.10.05

 

“O VENTO voa,

a noite toda se atordoa,

a folha cai. 

Haverá mesmo algum pensamento 

sobre essa noite? sobre esse vento? 

sobre essa folha que se vai?”

- Cecília Meireles


Árvore despida, ramos escanzelados, imagem triste e sombria de quem resiste de pé, teimosamente, no limite da sobrevivência. Pudica nudez, faz-lhe falta o manto que por algum tempo a cobriu. Pobreza de um final de ciclo. As flores murcharam, para sempre. Foi-se a beleza das cores e a doçura dos aromas. As folhas, uma a uma, até à última, despediram-se para sempre, também. Pisadas por caminhantes indiferentes, arrastadas ou levadas pelo vento para longe, abandonaram os ramos a que deram tanta vida. Mas, vencido o inverno, oxalá não demore a chegar a primavera!... Novas folhas e novas flores vicejarão nas árvores que pacientemente aguardam a brilhante alegria de um novo tempo, a renovação anunciada. “Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos” - Job, 14.

 

 

“Mas uma coisa é certa: o que fomos um dia

não pode ser recuperado. 

E isso nos transforma, irreversivelmente, Para todo o sempre”

- Laura Messina

 

 

 

Quanto ao homem, “…rendendo o espírito, então onde está? Como as águas se retiram do mar e o rio se esgota e fica seco, assim o homem se deita e não se levanta” - Job 14. Esgota-se na vivência de cada dia. O que foi, não voltará a ser. No que resta, transformar-se-á, irreversivelmente, adaptando-se aos imparáveis desafios do futuro. Com o tempo, não se reconhecerá no espelho em que busque traços do passado com que melhor se identificou. Lamentavelmente, em mudança para todo o sempre!...



Mas, até que a última folha caia…

 

 

 

“Precisamos aprender a viver com o que ficou, 

com o que nunca imaginamos enfrentar,

                                                 renascendo de forma improvisada,

                                                                          quase  antinatural.


Porque a vida exige de nós

uma força oculta, um impulso que nem sabíamos possuir.

Quebrados, mas vivos …”

 

- Laura Messin

 

 

 O Alemão

 

2024.11.22

 




“No cálice do meu refúgio, resta-me beber o vazio de meu ser para humedecer a poeira de minhas palavras mudas. Não estou triste, não estou cansada, não estou

NADA.” – Rosa Berg



“Sempre consegui esconder os meus sentimentos através do sorriso, sabe? Era só sorrir e pronto, estava tudo bem. Por dentro a dor me consumia, mas ninguém precisava saber, então eu sorria” - Larissa Cotona. Distância segura, constante, face a frequentes tentativas de aproximação perturbadora. Quantas vezes “- tudo bem, está tudo bem!” e um calmo sorriso a confirmar a confissão, desencorajaram a curiosidade ousada, perversa até, de quem pretendia, sabe-se lá com que intuito, a descoberta de padecimentos silenciados e guardados em espaços sagrados da vida dos outros, de alguns dos outros criteriosamente selecionados. Sofrimentos ocultos, longe do olhar maldoso de quem não seria nunca capaz de os entender verdadeiramente. Tristezas e cansaços negados, profundamente escondidos num vazio que dói, que dói muito, mas que ninguém vê. E quanto ao nada, insensível esvaziador de sentimentos, é vê-lo dando-se ares de felicidade… O preço a que a paz chegou; um sorriso, mesmo sendo de dor! Quem diria!...

 

 

“Possuía uma arma, um escudo, uma armadura, um

disfarce. Possuía um sorriso”. 

– Autor desconhecido

 

 

Sempre pronta, arma não carecida de licença de utilização. Escudo e armadura, proteção pessoal de eficiência comprovada e de uso quase indispensável perante a agressividade do mundo atual, cada vez mais estranho. Dores disfarçadas de um perfeito bem-estar, clamores de alma feitos silêncio para que ninguém os escute, preocupações de vida suportadas em solidão, não transmissíveis a terceiros… e sempre o sorriso, mesmo sendo de dor!

 

 

Cartas ao vento, papeis amarrotados e desamarrotados, inúmeras vezes, para substituição sucessiva de palavras cujo peso inicial, a manter-se, as impediriam de voar. Conteúdo final bem longe do texto originalmente ditado. Palavras, muitas palavras, em torno de sentimentos irrevelados… Ninguém as lê… e ainda bem!


“O sorriso não é sempre o melhor remédio, às vezes é apenas o melhor disfarce” – Éneas.

 

 

Sorri quando o sol perder a luz 

E sentires uma cruz 

Nos teus ombros cansados doridos 

Sorri vai mentindo a tua dor 

E ao notar que tu sorris 

Todo mundo irá supor

Que és feliz” 

 

- João de Barro

 

 

 O Alemão 


2024.12.16