quinta-feira, 5 de novembro de 2026






                                                                                                      “Murmúrios

  
Não há musas aqui.
 
Há sombras tutelares

Às quais vivo obrigado e devotado,

 
E elas também me inspiram.

 
Mas tão contidas que meu canto 


É sempre como um salmo sussurrado 


Num altar.


Tão breve e embargado


Para não perturbar


O silêncio do passado no presente.”


- Miguel Torga, Diário XIV 



No dizer de Cecília Meireles, os dias são feitos de “pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças”. Como o de hoje! Em registo moderado, solene até, numa postura defensiva, invisível aos olhares descobridores até do que não veem, desfrutam-se serenamente as horas, os minutos, os segundos. O tempo que resta! Devagar, em silêncio, a terna compatibilização do passado com o presente, numa prazerosa simbiose que a insensibilidade de muitos desaproveita. Estranho alheamento, esse, dispensável desconsideração, arquivamento definitivo de vida friamente assumido por quem coloca o passado numa espécie de empoeirado e desinteressante museu a nunca visitar, por prejudicial, dizem, à dinâmica da era atual. Agora, os tempos são outros, proclamam! Aponta-se a um novo paradigma que rompe definitivamente com o que já se foi, sem exceções. Perda de tempo para a arqueologia dos povos. Ancestralidade adormecida. Clausura da memória, por um lado; liberdade da aventura, por outro. Quem viver verá a realidade prometida para amanhã!... 


 “Nada!

Horas e horas neste ponto morto

Onde caiu agora a minha vida…

Nem um desejo, ao menos!

Só instintos pequenos:

Apetite de cama e de comida!

Nem sequer ler um livro

Ou conversar comigo, discutir…

Nada!

Neutro, morno, a dormir

Com a carne acordada.”

-Miguel Torga 


Por ora, “Nada! Neutro, morno, a dormir com a carne acordada”. Preencher o vazio, tarefa quase impossível mesmo para a melhor das vontades. Escasseia a matéria-prima num mundo tão empobrecido de humanidade, embora, enganosamente, se prenunciem benesses distribuíveis a qualquer momento, como subtis passes milagrosos aprendidos em valiosos manuais somente agora descobertos. Magia prometedora, caldo de sonhos e mais sonhos em sonos de carnes acordadas. Arautos de tudo e de nada, quem os ouve?... 


Cartas ao vento, não as leiam. São gritos aos quatro cantos… 


“Poesia!

Poesia!

Grite aos quatro cantos…

Quem sabe os ventos levem doçura

A este momento do mundo

A esta humanidade

Desumana!”

- William Marques de Oliveira 


 

O Alemão 


2025.10.16


terça-feira, 3 de novembro de 2026





Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte.

Que ninguém me peça nada. Nada.

Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia, 

 Com a minha noite que nem sempre é noite

Como a alma quer.

Não sei caminhos de cor.

- Fernando Namora 


Um dia de cada vez! A idade aconselha passos lentos para atrasar a vida, assim como uma longa distância de ambientes confusos. Há que assegurar alguma tranquilidade. A paz, recurso cada vez mais escasso, sobe constantemente o seu preço, atribuindo-se montantes quase impagáveis, inacessíveis à bolsa de um simples aposentado de afazeres que já ninguém valoriza. Afazeres que, até há pouco, lhe permitiram acumular algum aforro para alma e, ainda hoje, lhe garantem a sobrevivência. Até quando Deus quiser!... 


A linha do horizonte já esteve mais distante. Tantas vezes o nevoeiro a encobriu que nem se apercebeu do seu rápido avanço. Agora, mais visível pela aproximação, as surpresas sucedem-se à medida que se lhe revela o futuro para o qual correu entusiasmado tantas e tantas vezes. Ao longe, como era atraente!... Como é assustador visto de perto!... 


Cartas ao vento, o melhor refúgio para quem as cria e sabe que ninguém as lê. Necessidade estranha esta, a de escrever para si mesmo. Tom suave dos gritos da alma, discurso calmo de quem prefere desabafar consigo mesmo por desconfiar que não o entendam. Contenção, estado de necessidade em tempos com que não se identifica. Aceita a crítica: é da idade!... 


“Anda devagar, porque já teve pressa”, continua a jornada apesar das pedras do caminho. 


Como Fernando Namora, que cita respeitosamente, o signatário não sabe caminhos de cor, nem mesmo os que já percorreu… Na vida, “nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte”. 


 Se possível, “deixai-o como a alma quer” … 


 O Alemão


 2025.10.14



 

sexta-feira, 20 de setembro de 2024



HISTÓRIA Nº. 126

 

a hora de parar…

 

“No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.”

 

- Carlos Drummond de Andrade

 

“Melhor do que começar é saber a hora de parar” – Vitor Orlandi. Qualificando-os a todos como “Histórias”, a verdade é que os seus modestos escritos foram sempre mais do que meros repositórios de um passado restrito a um grupo específico de pessoas no qual se incluía. Como os amigos lembrarão, algumas vezes, nas suas dissertações, fez desabafos pessoais sobre desilusões, desgostos ou perdas irreparáveis ao nível de valores e princípios a que foi assistindo. Sempre que se justificou não deixou de criticar o mundo e o comportamento da vida em sociedade. As pedras do caminho foram endurecendo as palavras que há sete anos eram bem mais leves, bem mais suaves…

 

Os seus bons amigos que, discretamente, o acompanharam nesta longa caminhada, ficaram a conhecer, mais do que as histórias de seres encantadores e que o Alemão carinhosamente contou, a sua própria história. Ou seja, a parte acessível, porque, dizendo muito, nunca disse tudo, e mesmo o que disse, em muitos momentos, fê-lo de forma convenientemente enigmática. Como tantas vezes confessou, escrevia para si mesmo!...

 

Mentalmente, já vinha antecipando este momento. Escolheu este dia, anterior a um que lhe diz muito em cada ano (!...), por lhe parecer o melhor como demarcador de tempos.

 

As cento e vinte e seis Histórias, devidamente acondicionadas, estarão guardadas, a partir de agora, na gaveta das suas mais gratas recordações. Quanto ao Alemão, talvez apareça por aqui, de vez em quando, sob outro formato. Para rever os amigos, os bons amigos.

 

“Às vezes é preciso parar e olhar para longe, para podermos enxergar o que está diante de nós” – John Kennedy. 



 

terça-feira, 17 de setembro de 2024



HISTÓRIA Nº. 125

 

E Deus, onde fica no meio de tudo isto?...

 

“Poucos são os que têm privacidade para ficar tristes. Neste mundo de vigília e patrulha constantes, é um luxo poder sofrer sem ter ninguém nos observando.”

- Martha Medeiros

 

Ultimamente, com frequência se ouvem desabafos: “está tudo doido!” Reação a comportamentos humanos que, nesta altura da vida, deveriam estar já erradicados. Um perverso levantamento de poderes, que o Alemão receava pela perda de valores e princípios tantas vezes aflorados nos seus textos, provocou e alimenta uma agitação na maioria das pessoas que ninguém se atreve a adiantar por quanto tempo durará. Irritação descontrolada e duradoura. Tantos sentimentos de natureza antagónica foram desavisadamente despertados nestes últimos tempos. Convivência estranha, atípica até, tendo em conta a vincada diferença da natureza de cada um deles, uniram as suas forças numa aliança de cedências entre si até há pouco impensável. Quem lê, entenda! A visão atual do mundo é muito preocupante. Diversas frentes de combate… e cada vez menos gente para as enfrentar. Resultando, ainda que em diferentes níveis (famílias, povos, mundo em geral…), em fomes, pestes e guerras. O Alemão arrisca, ainda, uma pergunta para si pertinente: e Deus, onde fica no meio de tudo isto?...

 

O Alemão tem uma “maneira romântica de ficar triste”, na definição que Mário Quintana deu ao estado de “melancolia”. Olham-no e especulam acerca da tristeza profunda em si instalada e que, sem o querer, deixa transparecer, embora sem perder o sorriso que desde criança mantem. Olha para o muito que se perdeu e desconfia que muito se perderá ainda! É que, “está tudo doido!”, também faz parte das suas conclusões, numa altura em que as forças começam a ser insuficientes. Todavia, uma réstia de esperança persiste:” Esperei com paciência no Senhor, e ele se inclinou para mim e ouviu o meu clamor” – Salmo 40.

 

O Alemão sabe que alguns dos seus amigos consideram a solidão que cultiva e a tristeza que aceita como companhia males que deveria eliminar com brevidade, pois “a vida é como um conto ligeiro” - (Salmo 90) e já não haverá muito daquele texto para ler.

 

Amigos, já é tarde para mudar!... “Trago tristezas particulares, tão minhas que só na solidão posso senti-las. Acho que todo mundo tem aquela tristeza só sua; às vezes somos egoístas até com a nossa dor” - Caio Augusto Leite.   




sexta-feira, 30 de agosto de 2024



HISTÓRIA Nº. 124

 

A Banda do Avô…

 

“Não é tristeza, apenas cansaço.

Afinal, são tantas as batalhas.

Não é falta de fé, é compasso de espera,

Para que aquilo em que tanto se acredita se realize.

Não é medo, é resguardo, cuidado.

Resguardo para se dispor em momentos de menos turbulência.

Não é solidão, é opção, não querer trazer ninguém para o meio do

seu “eu em confusão”.

Não é tempo perdido, é momento de reconstrução.

Porque tudo isso vai passar…

Porque de repente você volta em paz, inteiro e mais leve.

Que seja breve…”

- Jorge Luiz de Alencar Soares

 

 

“Não é tristeza, apenas cansaço”. Subtil nuance poética em missão atenuadora do sofrimento causado por um dos sentimentos mais frequentes do nosso tempo. Esforço inglório, porém: é que a tristeza dói, mas o cansaço também dói, dói sim, e muito!...

 

O cansaço chegou com a idade, inevitavelmente. As forças se foram e, agora que tão necessárias seriam, já não existem. A consciência dessa incapacidade traz a dor provocada pela decorrência da inutilidade. Acresce a dor da quase resignação para que o encaminham alguns dos impacientes desta vida, ainda que gentilmente sugerida: hora de viver os netos, seis lindas criaturas de Deus que o Alemão ama profundamente…

 

E como dói o olhar para a vida nestes dias! Impossível ficar indiferente perante o estado de degradação a que o mundo chegou, embora haja quem considere que nunca se evoluiu tanto como nestes últimos anos… Em que sentido? Qual o preço? Ver seriamente atingidos por desvalorização e desprezo princípios e valores que sempre defendeu e difundiu com a sua frágil voz através dos tempos, provoca em si uma dor profundíssima que nenhum analgésico acalma. Infelizmente, muitos dormem, ignorando o aviso divino: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação” - Mateus, 26.

 

O Alemão faz suas as palavras que respeitosamente transcreve: “Sim, não foi fácil, caí e perdi, mas também venci. Venci o sono e o cansaço, venci o medo e a desilusão, venci a frustração e as críticas, venci a mim mesmo. Já pensei em desistir, mas continuei. Já pensei em abandonar, mas fiquei. Já cansei, mas continuei. Perder também é uma vitória. Por isso, nunca julgue alguém pelo brilho das medalhas, pelas cicatrizes da vitória, pela estante de troféus, pois você não faz ideia de quantas vezes ele já perdeu para conseguir vencer” - Wilton Lazarot

 

Já agora, só para terminar, “também temos saudade do que não existiu, e dói bastante.”  

Carlos Drummond de Andrade. 






sexta-feira, 23 de agosto de 2024



HISTÓRIA Nº. 123

 


O silêncio é uma confissão…

 


“Eu sou antes, eu sou sempre, eu sou nunca. E o que me espera é exatamente o inesperado. O que saberás de mim é a sombra da flecha que se fincou no alvo. Pois há segredos que eu não conto nem a mim mesma. O silêncio que trago em mim é a resposta ao meu mistério.”

- Clarice Lispector

 


“Não sei se sou extremamente sensível ou a vida é insuportável”, disse Vicent van Gogh, célebre pintor holandês do século XIX.  O Alemão, mais do que nunca, revê-se nesta expressão que leu hoje por mero acaso. Vive no meio dos seus silêncios, poupado nas palavras que nunca se permite, apoiado numa mudez preventiva, intencionalmente cautelosa. Gasta os dias no seu mundo com muitos anos e que lhe custou imenso a construir. Mas, apesar da prudência nos seus passos, não deixa de perceber incursões subtis, por caminhos de aparente bondade, à procura de mistérios que são só seus, unicamente seus. É o outro mundo, que o Alemão procura manter distante do seu, a movimentar-se em sua direção!...

 

No dizer de Camilo Castelo Branco “o silêncio é uma confissão”. Parece ter razão! Por isso, talvez, a manifestação de tanta criatividade nas deduções feitas pelos mais compulsivos curiosos, para lhes não chamar outra coisa… O Alemão precisa de paz!

 

E para não desiludir o esforço dos preocupados, mesmo dos sinceros, deixo-vos de seguida a confissão que explica, exatamente um mês depois de tanto silêncio, a razão de por aqui ter passado neste fim de tarde da penúltima sexta-feira de Agosto de 2024:

 

“Hoje a carência é minha.

Posso te contar um segredo?

Na verdade, uma confissão…

Senti saudades!”

                                                                                                                                                    - Torresjeh



 

terça-feira, 23 de julho de 2024



HISTÓRIA Nº. 122

 

O Bem e o Mal…

 

“Os homens deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são.”

- William Shakespeare

 

O jogo cauteloso das palavras, atenuador da dureza dirigida a uma das posturas humanas mais usadas e criticadas atualmente: a dissimulação. O distinto escritor inglês aponta o caminho da verdade, da autenticidade. Até o Alemão que, sem reservas, subscreve a introdução acima, procura as melhores palavras quando da adjetivação, felizmente não generalizável, dos sentimentos que prejudicam a vida em sociedade, sobretudo ao nível das boas relações que se esperam duradouras.

 

Diz o nosso povo, num dos seus adágios mais antigos, que “nem tudo o que reluz é ouro”. Mas a verdade é que, lamentavelmente, o brilho sedutor da aparência fascina a alma mais pura e simples. E uma mentira bem contada e inúmeras vezes repetida consegue ganhar foros de verdade! Um sorriso, uma palavra, ou um gesto inautênticos, hipócritas até, alcançam facilmente estatuto de sinceridade inatacável.    

 

Como alguém disse, “a verdade sempre aparece, pois é uma das regras fundamentais do tempo.” Impressionante como o tempo acaba por revelar a verdade dos sentimentos declarados: tantos se apresentam nobres sem o ser; tantos são tidos como falsos sendo verdadeiros. Quando assumida, a virtuosa paciência, nem sempre compreendida por ser controladora de desesperos e travão de precipitações, nunca vê frustrada a sua resistência. Pode questionar-se se vale a pena aguardar, muito ou pouco, mas os valores resultantes da espera serão sempre compensadores: pelo menos, o triunfo do certo sobre o errado, do verdadeiro sobre o falso!...

 

Discernir entre o bem e o mal, o desafio instante nestes tempos tão perturbadores!...  

 

“A sociedade vive num sistema hipócrita. Todos querem sinceridade, mas ninguém luta por isso.”

- Tatiana Moreira Alvarez