domingo, 23 de agosto de 2020







HISTÓRIA Nº. 66



Há uma Voz que fala sem palavras…



Tanto por dizer! Quantas palavras escravas de um silêncio que quase já não as comporta e não usadas na esperança de que, em breve, percam a força e deixem de ter sentido. O tempo acomoda e normalmente enfraquece a oportunidade. Diz-se, a certa altura: “já não vale a pena…” E a vida vai andando, os dias, os meses, os anos, e o egoísmo acentua-se apesar do pregão tão repetido apelando à solidariedade. Todos falam até do que não sabem. Sobretudo do que não sabem. Todos não, perdoem, que a sensatez de muitos ainda lhes controla o verbo.


Ver e não ver, ouvir e não ouvir, percebendo tudo… é desgastante, cansa muito. Daí a procura da paz, nem que isso implique caros sacrifícios oferecidos no altar da solidão. Os homens cada vez se afastam mais, numa altura em que deveriam estar cada vez mais perto…


O Alemão continua a fazer longas caminhadas. Que ninguém lhe recomendou, mas que gosta de cumprir. Entre o seu presente e o seu passado. Num vai e vem constante, percorre quilómetros e quilómetros de fazer inveja a um qualquer maratonista. Preso a tão bafientas recordações? Não, claro que não, embora o critiquem dizendo-lhe que a “vida é agora”. Mas, na verdade, é deambulando pelo passado que tem descoberto direção nestes tempos que muitos qualificam como sendo de mudança…. só que ninguém sabe do quê e nem para onde. Encontros com a memória sem dúvida decisivos em muitas das suas opções. Reconhece que os mais sábios conselhos, que ainda hoje observa, recebeu-os nesse criticado passado…


… e de uma Voz que fala sem palavras…







domingo, 19 de julho de 2020





HISTÓRIA Nº. 65



Sem aviso de recepção…



Domingo, manhã cedo. Temperatura amena, saborosa, depois do sofrimento causado pelo imenso calor dos últimos dias. Uma volta ao quarteirão para o habitual café despertador. Não mais do que essa pequena caminhada, que a vontade de circular pela cidade não é muita. Para além de desaconselhada. Observa o vazio urbano. Falta a alegria, a paz, a tranquilidade e o ânimo de muitos domingos do passado.  Do passado longínquo, sim, porque o Alemão já é idoso. E de repente, por falar nisto, a lembrança do movimento entusiasmante de crianças e jovens, muitos, subindo a Rua de S. Roque da Lameira, aos domingos de outras eras, pela manhã...


Agora, a amargura da descoberta do não saber nada, quando se achava conhecer já o suficiente, pelo menos. Agora, o medo de avançar por um caminho que parecia definitivamente aberto, mas que nestes últimos tempos se revelou impenetrável ou, no mínimo, inseguro. Agora, a estranha hesitação em enfrentar, sem exército e sem armas eficazes que o tempo enferrujou, uma força tão estranha quanto poderosa. Agora, a torturante dúvida sobre tudo o que se tinha como certo e, por isso, projetado no futuro. Agora, a ausência de soluções tão reveladora da incapacidade humana. Que desolação!


O Alemão anda triste. Os amigos conhecem-no, pelo que esta confissão acaba por ser uma redundância. E está triste porque percebe que os seus bons amigos também estão e não sabe o que fazer por eles…  A não ser, em jeito de carteiro à antiga portuguesa, depositar nas suas caixas do correio uma mensagem milenar que todos conhecem. Afinal, é só lembrar: ” O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã!”


Sem aviso de recepção…





sexta-feira, 3 de julho de 2020






HISTÓRIA Nº. 64


Retrato a preto e branco…


Tempos difíceis! Comportamentos estranhos, mas que se compreendem. Descontrolos emocionais. Muita da lucidez comprometida. E uma longa lista de sentimentos os mais diversos que ninguém sabe no que resultarão. Há quem diga que, depois destes tempos, nada será como antes…

Desgostoso com o que vê e ouve desde o seu posto de observação a que subiu há muito tempo, o Alemão vai pensando na vida. Fazendo-o, lembrou-se, e não quis deixar de assinalar, e só assinalar, uma das poucas datas que conserva no seu memorial mais íntimo. Inapagável, aconteça o que acontecer ainda. Não construiu uma história, não, que a inspiração anda arredia. Não cozinhou uma “faneca da pedra que muitos dos seus amigos apreciam quando bem frita, acompanhada de um arrozinho de tomate a fugir do prato”. Desta vez, mergulhou apenas na História. E só isso…


Retrato a preto e branco: “O fato cinza, no tempo em que as roupas duravam, ou tinham de durar, ainda dignificava o corpo magro do jovem sonhador. Estreara-o poucos meses antes, no dia do seu casamento. O melhor que tinha. Usava-o, de novo, na assunção de um outro compromisso. Era uma quinta-feira de Julho, anos setenta do século passado. Ao princípio da noite. Duas mãos possantes pousaram sobre a sua cabeça. Um menino recebido no seio de um grupo de Grandes Homens. E como foram Grandes! Entregaram-lhe o que não pediu. Não recusou.”


A família, o trabalho e os estudos ganharam, então, um forte concorrente!... O desafio foi conciliar tantas tarefas. Possivelmente falhou em alguma ou em todas elas umas quantas vezes. A definição de prioridades nem sempre lhe foi fácil. Eventualmente, nem sempre compreendida. Ganhou amigos, perdeu outros, talvez muitos. E embora lhe digam que nem Cristo agradou a todos, não esconde que gostaria de não ter inimigos… “Utopia, Alemão!” – gritaram-lhe de longe. Concorda…


Parece ter sido ontem, mas já passaram quarenta e cinco anos. Hoje…






quinta-feira, 21 de maio de 2020




HISTÓRIA Nº. 63


Quatro palavras…


“Que é feito do Alemão? Por onde anda? Onde se escondeu?”, não cessam de perguntar. “É verdade que nunca foi de anunciar previamente a publicação das suas prosas, mas agora exagerou. Nem um simples aviso. Nem sequer o indeterminado volto já. Ter-se-á calado definitivamente? Que ausência!”, estranham.


A verdade é que uma repentina e assustadora agitação inquietou o mundo, todo o mundo. A gritaria irrompeu da normalidade, numa indecifrável algaraviada. As vozes dos que sabem tudo e que sobre tudo dissertam, num determinado sentido hoje, no seu contrário amanhã, atingiram decibéis intoleravelmente excessivos. E o oportunismo, esse, subtil ou descarado, também não deixou de fazer a sua aparição no meio de tanta desgraça, sofrimento e dor. O poder, sempre o poder!


Sentindo-se deslocado naquele ambiente tão confuso e hostil, o Alemão partiu em busca de um lugar repousante muito para além do silêncio, do seu silêncio, que regularmente procura e onde normalmente o descobrem os que o conhecem. Foi longe desta vez, muito longe, até à região do nada ou do quase nada. Sem ninguém por perto. Exatamente para não ouvir, para não ver, para não falar


Milagrosamente, ao lugar do nada ou do quase nada, no dia certo, na hora exata, chegou-lhe uma inesperada mensagem, leve e calma, e que dizia: “Faço memória de ti…”.


O Alemão não esperava…






sábado, 29 de fevereiro de 2020




HISTÓRIA Nº. 62


Os labirintos da Vida.


Ninguém paga para entrar nem para sair. O preço a pagar vai aparecendo diluído ao longo do percurso. Modo prestacional e em qualquer moeda, segundo uma tabela cujos critérios de elaboração alguém domina. Nos avanços pelo que parece ser o bom caminho de saída… e nos recuos para recomposição da direção que se presume certa. Na hora do pânico porque a ansiedade atinge os seus limites. Na ausência de companhia capaz de tranquilizar e devolver o equilíbrio emocional. Na assustadora perceção de que não há ninguém por perto para ajudar. No reconhecimento, afinal, de que a construção do dia a dia nem sempre é fácil. Por vezes cria um indesmontável intrincado de dificuldades que envergonha, porque incapazes, os que se acham especialistas em resoluções lineares de todos os desafios.  


O Alemão lembra-se de alguns labirintos de jardim que existiam na sua infância. Na Cordoaria, por exemplo, e, sobretudo, nos Jardins do Palácio de Cristal. Sempre sozinho, experimentou-os a todos. Mas não gostou. Sensação inexplicável! A saída, meu Deus, como demorava a encontrá-la! Como respirava de alívio perante a libertação! Diversão muito adulta, demasiado profética…


Não podendo fugir-lhes, aos labirintos que não controla, o Alemão tem procurado o Guia que o isente dos preços definidos pela Tabela da Vida, ou lhe conceda algum desconto…   Assim como assim, “o caminho que você tem pela frente é mais importante do que aquele que você deixou para trás” – desconhece o autor (mensagem recebida hoje).




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020






HISTÓRIA Nº. 61



“O escritor escreve para tentar explicar a si mesmo o que está além da sua compreensão”, Gabriel García Márquez.


Também o Alemão escreve para si mesmo, desde a adolescência. Textos muito simples, despretensiosos. Enigmáticos, por vezes. “Estados de alma”, como uma amiga lhes chamou. Pedaços de sentimentos diversos, normalmente tristes, que a vida não está para alegrias.  Retalhos incolores de uma manta que o cobre e que continua a crescer:  deceções, enganos, frustrações, desilusões, expetativas malogradas….


O Alemão desenha por palavras para melhor se observar. Expõe para melhor se entender. Mas expõe apenas para si…   Não se arruma em nenhum estilo convencional. Nem isso o preocupa. É um desalinhado quanto a algum tipo de qualificações. Procura seguir apenas o Modelo que escolheu ainda criança… Aquele que é verdadeiramente o único Modelo!


Entusiasmada e proliferando como nunca, a mensagem imparável do “salve-se quem puder” a fazer colapsar irremediavelmente a sociedade enquanto tal pela ausência de valores essenciais ao relacionamento humano. Visão pessimista sobre o mundo e uma persistente “dor que desatina sem doer” – Camões perdoe a citação!...


O Alemão escreveu para si mesmo…




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020





HISTÓRIA Nº. 60



Mensagem amiga…



A mensagem caiu de mansinho. O leve sinal da sua chegada interrompeu, sem perturbar, o habitual silêncio meditativo dos quase sempre longos dias do Alemão. Acabava de chegar do Douro Litoral, da parte de uma boa amiga de longa data, mulher exemplar a quem não vê há muitos meses. Trazia belas respostas a perguntas que o Alemão nunca colocara a ninguém. Que maravilhoso sentimento terá motivado tal mensagem? Ou terá sido o acaso?!...


“Deus lhe conceda serenidade para aceitar o que não pode mudar e coragem para mudar o que pode mudar. Sabedoria para reconhecer a diferença!” Assim mesmo, ipsis verbis. A genuinidade de um coração entendido.


Momentos de alguma confusão mental. Dúvidas e mais dúvidas. No habitual cantinho do seu escritório doméstico, no exato momento do suave toque, o Alemão pensava na necessidade de mudar umas quantas coisas…  e na impossibilidade de o conseguir, pois o tempo não perdoa. Serenidade para aceitar o que não pode mudar?... Certamente.


“Nunca é tarde demais para mudar”, conselhos motivadores os mais frequentes na sua já pouco usada caixa postal. Percebe a intenção, que agradece. Mas, ainda que, pontualmente, possa mudar alguma situação, receia que o exercício da coragem para tal resulte em maior sofrimento pessoal e apresse a posição de não poder...


“Deus nos conceda sabedoria para reconhecer a diferença entre o poder e o não poder mudar.”


Obrigado, minha amiga do Douro Litoral.