domingo, 8 de setembro de 2019








HISTÓRIA Nº. 51



Dói por ser saudade…



O Alemão envelheceu. Parou de viver... ou para viver, finalmente. Sentado num desconfortável banco de um imposto conformismo, assiste, agora, ao passar do tempo, castigado, ainda, por um sol que lhe não é saudável nem desejável. As sombras, essas, estão todas tomadas por quem ainda pode circular. Egoísmos! Cansado de uma vida de curvas e de contracurvas. Condução desgastante por caminhos secundários. Que as autoestradas da vida não são para todos! Por isso as não conheceu. Que estranha sensação de uma vida desaproveitada… ou que alguém aproveitou!


Para o Alemão nem sempre é doentio o mergulhar no passado, no seu passado. Quer se queira quer não, ele sempre estará presente, quanto mais não seja naquilo a que se chegou. A semente é o começo… E há dias em que revisitar alguns dos que já se foram é como que beber um tonificante que permite sobreviver numa época tão estranha como a atual.


Na galeria virtual dos retratos que conserva algures dentro de si, o Alemão revê a imagem de gente que circulou por estradas bem piores que aquelas e viveu sem sombras protetoras, ano após ano, castigada por um sol violento, injusto, inclemente. Fotos a preto e branco de homens e mulheres que, apesar de tudo o que sofreram, faziam questão de ser exemplares na sua entrega à vida que amaram. Que conforto na observação de cada rosto onde pontifica, comum a todos, um porte firme e um doce e tranquilo sorriso! Não é fotogenia resultante de “olh’ó passarinho”, não. É a pura expressão da felicidade sentida por cada um deles. O Alemão conheceu-os e sabe qual a razão daquela felicidade.


Manhã de domingo. Setembro vinhateiro. Calor pouco habitual. Condimentos de um alimento de saudade que dói por isso mesmo: por ser saudade. 






sexta-feira, 23 de agosto de 2019








HISTÓRIA Nº. 50



Assim Deus o ajude!...



Por onde anda o Alemão, que ninguém o vê? Pergunta-se por aí insistentemente. A verdade é que, nesta sua ausência, nunca esteve tão presente…. Acreditem.


Cinquenta fanecas morderam o anzol desde 2017. Cozinhou-as e serviu-as carinhosamente. Bem passadas, malpassadas, alimentou-se com contos e desabafos escritos que doutra forma dificilmente tornaria públicos. Mas, de há uns tempos a esta parte, o mar deixou de estar para peixe… Quem sabe se num destes dias um novo cardume passará por perto, nos baixios deste mar em que se encontra mais ou menos atolado. O Alemão não desaproveitará a oportunidade, promete. 


O Alemão tem andado por aí a fechar caminhos velhos da sua vida, inúteis, intransitáveis. Para abrir caminhos novos? Não, não. Há muito percebeu ser esse trabalho uma perda de tempo. Já não vale a pena. Por diversas razões, dececionantes razões. Mantém abertos apenas os que lhe são suficientes para o resto da viagem. Assim Deus o ajude!...   


Aquela trabalhosa e delicada tarefa tirou-lhe tempo e, garantidamente, diminuiu-lhe o já pouco engenho e a arte nesta coisa de escrever para si mesmo e que outros, gentilmente, sobretudo amigos, foram lendo. Reconhece que o descanso que já há alguns anos não prescreve a si mesmo lhe é agora imposto pela própria vida. Ninguém é de ferro. Afinal todos merecem parar um pouco. “Vá descansar uns dias”, recomendaram-lhe ultimamente alguns amigos, de forma insistente.  O Alemão sempre sorriu perante tão bondosa sugestão. E recorda a expressão de um bom amigo que já não está por cá: “alguém tem que trabalhar!”


O Alemão voltará, assim Deus o ajude.









segunda-feira, 3 de junho de 2019







HISTÓRIA Nº. 49



Uma flor para todos os “outros” …



“Daqueles tempos tenho apenas memórias cinzentas”, disse a simpática senhora para alguém a seu lado, enquanto servia o cimbalino despertador ao Alemão. Em português correto, mas com sotaque. Deu para perceber que falava dos anos 80 do século passado e sobre uma região distante, possivelmente a terra onde nasceu. Tom de voz calmo, mesmo doce, revelador de um conformismo próprio de quem acha ter nascido para sofrer e, por isso, sem a possibilidade de evitar as dores e mais dores que lhe acinzentaram a vida. Terminado o cimbalino da manhã, o Alemão saiu do pequeno recinto pensativo. O conhecimento da História recente levou-o ao lugar onde ocorreram os fatos sugeridos e que marcaram indelevelmente a vida daquela angélica criatura. Passaram-se já muitos anos. Com eles tanta modificação no mundo. Quem infligiu aqueles sofrimentos na sua maioria já não existe. E os que ainda existam, saíram de cena incógnitos e possivelmente vivendo o resto dos seus dias tranquilamente. Tranquilamente?!...


Memórias cinzentas, expressão que emocionou o Alemão e o levou a recuar até alguns momentos-situações que gostaria de nunca mais lembrar. Não conseguiu, porém, impedir tais recordações. Foi-lhe impossível não ver algumas figuras que marcaram pela negativa a sua vida. Uma boa parte já nem vive. Paz à sua alma! Outra, inteligentemente e antes que as coisas se complicassem, afastou-se dos palcos que tanto frequentou, “saindo de fininho”, para viver o resto dos seus dias tranquilamente. Tranquilamente?!... Outra, resistente, ainda pulula por aí exibindo-se como portadora de uma moralidade inatacável que a faz viver em paz. Em paz?!...


Impressionante como o egoísta usa a interlocução do “outro”. Este somente existe para dar cumprimento a ambições e projetos cuja concretização interessa apenas àquele. Tem sempre razão, está sempre certo, o egoísta. A água tem de correr sempre na sua direção, única direção. E o que não der certo há de ser sempre por culpa do “outro”.   


Memórias cinzentas, bruma espessa que somente uma Luz Poderosa atravessa de modo a fazer o Alemão compreender porque é que o passado ainda dói, mas não o impediu de caminhar até ao dia de hoje. “Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão, e o temor de Isaque não fora comigo, por certo me enviarias agora vazio” (Genesis, 31).





segunda-feira, 20 de maio de 2019









HISTÓRIA Nº. 48



Passeios pelo campo…




Terá morrido de pé como todas as árvores. Nogueira centenária, enorme e majestosa, sobressaía dominadora do meio de um vasto campo que sempre pareceu abandonado e que confrontava com um caminho de cabras (pelos montes não faltam caminhos!) que levava a Poiares. Uma espécie de necessidade de afirmar a sua pequenez confrontando-a com aquele gigante da natureza habituou o Alemão a uma diária peregrinação, quase religiosa, sempre que por ali andava. Mas já não existe, aquela que foi grande. Removeram-na, reduzindo-a, certamente, a pedaços facilmente transportáveis, deixando apenas sepultado algum pedaço das suas raízes mais profundas... que nunca mais brotarão da terra. Levaram a imponência que enchia o quadro daquela paisagem duriense. Única. Aquele caminho já não é a mesma coisa…



A peregrinação tinha outros santuários: os cardenhos de xisto que o Alemão conheceu, desde sempre, abandonados, cobertos por silvas (amoreiras-silvestres) carregadas de generosos frutos que, muitas vezes, terminavam em açucaradas sobremesas. De vez em quando, como que agradecidos pela única visita que ainda recebiam, punham a descoberto alguma relíquia que, assim, poupavam ao eterno esquecimento: alguma chave enorme, enferrujada, escondida por entre as pedras junto à fechadura e que alguém ali deixou ao sair pela última vez…; ou alguma lamparina oxidada, esquecida da sua última luz… Mas, verdadeiramente inesquecível, o silêncio quase absoluto sobre aquele campo sagrado, que nem os sardões, lagartixas, coelhos bravos, lebres e tantos outros seres daquela riquíssima biodiversidade ousavam perturbar.



De longe a longe, um “bom-dia lhe dê Deus” da boca de alguém cujo rosto se escondia no meio do molho de lenha acabada de apanhar num dos montes vizinhos e que, pendendo para todos os lados, quase lhe cobria os pés. “Obrigado, Deus abençoe”, retribuía o Alemão evitando referir o género (seria homem?... Seria mulher?...), olhando com admiração o trajeto-movimento daquela criatura que, sem queixumes, carregava tão grande e pesado fardo. E que ainda falava de Deus!...





quarta-feira, 15 de maio de 2019






HISTÓRIA Nº. 47



Há dias e dias…



Há dias assim... Pesados, perturbadores, trazendo-nos uma estranha sensação de culpa por todos os problemas do nosso pequenino mundo. Pelo que não fizemos, pelo que não dissemos e, sobretudo, pelo que não previmos. Uma acusação de incompetência nos amassa até ao pó da terra como se não merecêssemos levantar a cabeça em cumprimento da mais simples ambição de respirar um melhor ar, uma melhor paz…. Dura punição!


O esforço de uma vida só é enaltecido no momento da glória alcançada - se alcançada!... Para muitos, existe tal reconhecimento apenas no que satisfaz. O caminho percorrido ou a percorrer dificilmente merece apreciação positiva. A pressa de chegar desvaloriza a beleza e o valor de cada passo. Justa ou injusta, a vida é isto mesmo. Entre os homens, o prémio do esforço sempre dependerá do resultado: a glória ou o esquecimento!


O Alemão deseja que o peso deste dia passe rapidamente. Quem sabe, talvez amanhã a leveza do novo dia perpasse por todos os lugares do nosso pequenino mundo. Afinal, nem todos os dias são iguais!...






terça-feira, 2 de abril de 2019









HISTÓRIA Nº. 46



A solidão da liberdade…



Que saudades do orvalho das manhãs, do cheiro da terra, do ar puro de Vila Seca! Corria pelos montes pisando caminhos que ele próprio criava ao passar. Menino amante da liberdade em solidão. Os tojos arranhavam-lhe ferozmente as pernas franzinas que os calções de então não protegiam. Ferimentos que não lhe esmoreciam o ânimo quanto a passeios futuros. Nem a ameaça das abelhas que o perseguiam e que tanto temia o afastavam daquele desígnio. Tojos e abelhas, defensores heroicos do seu território, inimigos campestres do pequeno intruso, nunca prejudicaram o seu amor àquelas terras onde era feliz, embora só. Ali o Alemão era livre! Qual o custo? Meia-dúzia de arranhões e algumas ferroadas que recursos naturais ou mesinhas ancestrais resolviam de um dia para o outro.


Nos dias de hoje vivem-se momentos de grande perturbação. Sociedade que compromete a liberdade do homem, limitando-o em tudo, até, mesmo, na prática do gesto mais simples: o de dar a mão. Mundo profundamente doente onde intervir para pacificar é arriscar-se a ser mal-entendido. Lugar de vida onde prospera a desconfiança e o egoísmo reina. Cada um por si!…


“Não se exponha Alemão”, aconselha a sensatez que lhe prescreve o silêncio e acentua-lhe a solidão… sem liberdade.


Que saudade do orvalho das manhãs!...





domingo, 17 de março de 2019






HISTÓRIA Nº. 45



Os domingos de manhã…



A verdade é que sempre sentiu dificuldades em entender-se com este mundo. Por descobrir, ainda, e agora apenas como curiosidade, quem rejeitava quem?!...  O Alemão teve de ser homem muito cedo. Cresceu sozinho, sem pai, quase sem crianças - amigas por perto, lutando timidamente pela sobrevivência, num mundo de gente grande. Tempos difíceis. 


Os bons ensinamentos ouvidos aos domingos de manhã mantiveram-no “inocente e puro” durante muitos e muitos anos. E ainda bem! Está grato aos homens simples que lhe transmitiram tão nobres sentimentos a partir dos conselhos e exemplos amorosamente distribuídos. Por isso, foi sempre com a radiosa alegria da criança que abraçou cada patamar da vida a que chegou no desenvolvimento da sua existência. Alegria que partilhava sem reservas, por acreditar na bondade como qualidade comum a todos os homens…


Somente há pouco tempo, o Alemão percebeu ter desenvolvido dentro de si outro mundo em nada coincidente com aquele que contempla no seu dia a dia. Dolorosa descoberta!... A conciliação destes dois mundos é meramente aparente, confessa. O conflito subsistirá pelo tempo fora… Já é tarde, muito tarde, para qualquer ajustamento!


O meu mundo é mudo, confirma o Alemão.