quarta-feira, 30 de dezembro de 2020


 

HISTÓRIA Nº. 69

 

O Senhor te abençoe e te guarde…

 

Não faz perguntas porque já não lhe interessam respostas. Perdeu a curiosidade. Observa, apenas observa. Uma espécie de abulia o acompanha no tempo que se vai perdendo.

 

Têm perguntado por ele, pelo Alemão. Há quanto tempo não dá sinais de vida. E os últimos que deu, há mais de um mês, deixaram perceber um enorme desencanto. As palavras endureceram as narrações mais recentes, denunciando sentimentos formados a partir da saudade de um passado rico em princípios e valores humanos infelizmente caídos em desuso. História de vida feita de episódios felizes e infelizes, alegres e tristes, bons e maus, alguns deles contados neste espaço e que alguns amigos, gastando minutos do seu tempo, têm acompanhado nestes últimos anos. Naturalmente, existe o que nunca será contado. Património pessoal e intransmissível, segredos para a eternidade!

 

Quem o conhece sabe que sempre teve muita dificuldade em acreditar no homem. Confissão estranha para quem tem determinado tipo de obrigações…, pensarão alguns. Mas a verdade é que, desde a infância até aos dias de hoje, o que viu e sentiu moldou-lhe a opinião. Tanta guerra perfeitamente dispensável. Conquistas de poder pelo poder. Egoísmos, arrogâncias, invejas, oportunismos. E, depois, “nada há para lembrar”, assumem como se nada tivesse acontecidocalcorreando, com impressionante equilíbrio, os caminhos lamacentos do caos em que a humanidade mergulhou. Mundo do avesso!

 

Alguém fará a História da situação presente. Tempo de inexprimível calamidade. O Alemão apenas observa. Mas a sua abulia não é suficientemente dominadora para o separar do desejo de dirigir aos seus amigos uma das mais lindas mensagens que conhece: “O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o Seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o Seu rosto e te dê a paz” – Números, Bíblia Sagrada.




domingo, 1 de novembro de 2020

 



HISTÓRIA Nº. 68

 

É tarde, muito tarde…

 

Palavras mudas, ora claras ora enigmáticas. O Alemão discursa desabafos. A força do momento – manhã do primeiro dia de Novembro, ano 2020, sob a influencia de uma ameaça única, imprevisível – acentuou-lhe a saudade e trouxe-lhe à memória recordações de múltiplos sabores. Doces e amargos… 

 

A vida prescreveu-lhe silêncios sobre silêncios. Ainda novo, com fortes cordas lhe prendeu a voz. Nós indesatáveis de tão apertados. Quase desaprendeu totalmente de falar…  Reaprender, agora, é tarde, muito tarde!

 

Nunca esquecerá a forma como venceu os seus anos até hoje. E já são muitos. Quase sempre sem presença, que lha não permitiam. Aliás, nunca percebeu a razão de tanta reserva a seu respeito, de tratamento tão especial: o afastamento. Melhor, nunca quis perceber, não fosse desiludir-se...  Obstáculos e mais obstáculos tornaram o seu caminho sempre muito apertado, onde o equilíbrio foi um verdadeiro milagre. Tão reduzido espaço tornou-o gestor e beneficiário do “pouco com Deus…”. Daí a agudeza da observação que o Alemão desenvolveu em vez da força da palavra… que enfraqueceu. Não é homem de guerras…

 

A superioridade e arrogância pensava-as, se não eliminadas, pelo menos, neste momento, desativadas, dando lugar à solidariedade e ao amor ao próximo, valores imprescindíveis no dia a dia da humanidade. Mas, - surpresa das surpresas, ou talvez não -, continuam bem vivas. Que ruído! Que confusão! Como em tempos passados que o Alemão recorda, tantos senhores do mundo, do seu mundo, procurando afirmação. Sabem tudo e de tudo… e dissertam sobre tudo, acrescentando aflição às aflições já existentes. Colecionadores de vaidades, buscadores de honrarias mesmo em tempos de miséria. Afinal, qualquer tempo é tempo…

 

Pobre mundo este, meu Deus!



  

segunda-feira, 5 de outubro de 2020


HISTÓRIA Nº. 67

 

Longas caminhadas…

 

Caminha pensativo pelas trilhas da vida. Sozinho, como sempre. Hábito adquirido desde a infância. Percorre montes e vales. Cumpre longas caminhadas por veredas estranhamente desertas. Sem se cruzar com ninguém. Aliás, sem viva alma por perto. “Para onde foram todos?”, pergunta-se. “Que tipo de diáspora aconteceu?”, gostaria de perceber. Preocupante vazio, angustiante desolação…

 

Severamente atingidos por interesses que se alevantaram mais alto, os valores humanos têm conhecido golpes violentos, duríssimos, de recuperação difícil ou impossível. O Alemão já viveu tempo suficiente para o confirmar. E basta-lhe olhar em volta para não ter dúvidas. Lamentavelmente, os profetas da desgraça não falharam nas suas previsões. Na verdade, o Mundo mudou.

 

O comodismo desenhou novas formas de relacionamento humano. A solidariedade, tantas vezes invocada e sublimada em inflamados discursos, alguns de duvidosas intenções, já teve o seu tempo de glória. O respeito, que alguns desatualizados exigem e por ele tantas vezes ainda reclamam, caiu em desuso.  Já não há sorrisos. A civilidade e o bom trato, marcas de uma época não muito distante, esgotaram-se completamente, substituídas por uma irritante e insuportável agressividade. Será agora o tempo pleno do egoísmo, do salve-se quem puder? O Alemão não arrisca respostas. Pergunta, apenas, em função do que observa.

 

As últimas caminhadas têm sido muito longas, até penosas. O Alemão está indisfarçavelmente cansado... 


 

domingo, 23 de agosto de 2020







HISTÓRIA Nº. 66



Há uma Voz que fala sem palavras…



Tanto por dizer! Quantas palavras escravas de um silêncio que quase já não as comporta e não usadas na esperança de que, em breve, percam a força e deixem de ter sentido. O tempo acomoda e normalmente enfraquece a oportunidade. Diz-se, a certa altura: “já não vale a pena…” E a vida vai andando, os dias, os meses, os anos, e o egoísmo acentua-se apesar do pregão tão repetido apelando à solidariedade. Todos falam até do que não sabem. Sobretudo do que não sabem. Todos não, perdoem, que a sensatez de muitos ainda lhes controla o verbo.


Ver e não ver, ouvir e não ouvir, percebendo tudo… é desgastante, cansa muito. Daí a procura da paz, nem que isso implique caros sacrifícios oferecidos no altar da solidão. Os homens cada vez se afastam mais, numa altura em que deveriam estar cada vez mais perto…


O Alemão continua a fazer longas caminhadas. Que ninguém lhe recomendou, mas que gosta de cumprir. Entre o seu presente e o seu passado. Num vai e vem constante, percorre quilómetros e quilómetros de fazer inveja a um qualquer maratonista. Preso a tão bafientas recordações? Não, claro que não, embora o critiquem dizendo-lhe que a “vida é agora”. Mas, na verdade, é deambulando pelo passado que tem descoberto direção nestes tempos que muitos qualificam como sendo de mudança…. só que ninguém sabe do quê e nem para onde. Encontros com a memória sem dúvida decisivos em muitas das suas opções. Reconhece que os mais sábios conselhos, que ainda hoje observa, recebeu-os nesse criticado passado…


… e de uma Voz que fala sem palavras…







domingo, 19 de julho de 2020





HISTÓRIA Nº. 65



Sem aviso de recepção…



Domingo, manhã cedo. Temperatura amena, saborosa, depois do sofrimento causado pelo imenso calor dos últimos dias. Uma volta ao quarteirão para o habitual café despertador. Não mais do que essa pequena caminhada, que a vontade de circular pela cidade não é muita. Para além de desaconselhada. Observa o vazio urbano. Falta a alegria, a paz, a tranquilidade e o ânimo de muitos domingos do passado.  Do passado longínquo, sim, porque o Alemão já é idoso. E de repente, por falar nisto, a lembrança do movimento entusiasmante de crianças e jovens, muitos, subindo a Rua de S. Roque da Lameira, aos domingos de outras eras, pela manhã...


Agora, a amargura da descoberta do não saber nada, quando se achava conhecer já o suficiente, pelo menos. Agora, o medo de avançar por um caminho que parecia definitivamente aberto, mas que nestes últimos tempos se revelou impenetrável ou, no mínimo, inseguro. Agora, a estranha hesitação em enfrentar, sem exército e sem armas eficazes que o tempo enferrujou, uma força tão estranha quanto poderosa. Agora, a torturante dúvida sobre tudo o que se tinha como certo e, por isso, projetado no futuro. Agora, a ausência de soluções tão reveladora da incapacidade humana. Que desolação!


O Alemão anda triste. Os amigos conhecem-no, pelo que esta confissão acaba por ser uma redundância. E está triste porque percebe que os seus bons amigos também estão e não sabe o que fazer por eles…  A não ser, em jeito de carteiro à antiga portuguesa, depositar nas suas caixas do correio uma mensagem milenar que todos conhecem. Afinal, é só lembrar: ” O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã!”


Sem aviso de recepção…





sexta-feira, 3 de julho de 2020






HISTÓRIA Nº. 64


Retrato a preto e branco…


Tempos difíceis! Comportamentos estranhos, mas que se compreendem. Descontrolos emocionais. Muita da lucidez comprometida. E uma longa lista de sentimentos os mais diversos que ninguém sabe no que resultarão. Há quem diga que, depois destes tempos, nada será como antes…

Desgostoso com o que vê e ouve desde o seu posto de observação a que subiu há muito tempo, o Alemão vai pensando na vida. Fazendo-o, lembrou-se, e não quis deixar de assinalar, e só assinalar, uma das poucas datas que conserva no seu memorial mais íntimo. Inapagável, aconteça o que acontecer ainda. Não construiu uma história, não, que a inspiração anda arredia. Não cozinhou uma “faneca da pedra que muitos dos seus amigos apreciam quando bem frita, acompanhada de um arrozinho de tomate a fugir do prato”. Desta vez, mergulhou apenas na História. E só isso…


Retrato a preto e branco: “O fato cinza, no tempo em que as roupas duravam, ou tinham de durar, ainda dignificava o corpo magro do jovem sonhador. Estreara-o poucos meses antes, no dia do seu casamento. O melhor que tinha. Usava-o, de novo, na assunção de um outro compromisso. Era uma quinta-feira de Julho, anos setenta do século passado. Ao princípio da noite. Duas mãos possantes pousaram sobre a sua cabeça. Um menino recebido no seio de um grupo de Grandes Homens. E como foram Grandes! Entregaram-lhe o que não pediu. Não recusou.”


A família, o trabalho e os estudos ganharam, então, um forte concorrente!... O desafio foi conciliar tantas tarefas. Possivelmente falhou em alguma ou em todas elas umas quantas vezes. A definição de prioridades nem sempre lhe foi fácil. Eventualmente, nem sempre compreendida. Ganhou amigos, perdeu outros, talvez muitos. E embora lhe digam que nem Cristo agradou a todos, não esconde que gostaria de não ter inimigos… “Utopia, Alemão!” – gritaram-lhe de longe. Concorda…


Parece ter sido ontem, mas já passaram quarenta e cinco anos. Hoje…